História e Cultura

📜 Memória · Patrimônio · Cultura

História e Cultura

Guapé é uma cidade de duas paisagens e uma memória contínua: nasceu entre rios, foi refeita pelo lago e preserva a identidade pela fé, pelo patrimônio e pela lembrança da cidade antiga.

🌿 Origem

O nome que virou profecia

Na língua indígena, “Guapé” designa a planta aquática que cobre a superfície de lagos e rios formando verdadeiros tapetes verdes — o aguapé. A palavra também é lida como “caminho n’água”, de uma vegetação chamada “Guay” que, ao se unir, faz caminhos sobre a superfície dos rios.

Ninguém imaginou, quando o nome foi escolhido, como ele seria profético. Séculos depois, Guapé se tornaria literalmente caminho d’água — cercada pelo Lago de Furnas em quase todos os lados.

“Guaypé” — caminho n’água. O topônimo atravessou os séculos como “Aguapé” e se consolidou como Guapé no século XX.
🕰️ Linha do tempo

Marcos históricos documentados

Dados confirmados por Prefeitura Municipal, IBGE, ALMG (Lei nº 843/1923), IEPHA-MG e Diocese da Campanha.

1759

Primeiros registros do arraial

Os primeiros aventureiros chegam em busca de ouro. O território era ligado a Boa Esperança.

1825

Capela de São Francisco de Assis

O fazendeiro José Bernardes Ferreira Lara constrói a capela em cumprimento a uma promessa de sua esposa, Dona Esméria Angélica da Pureza.

1856

Paróquia e distrito

Em 9 de maio cria-se a paróquia. Em 28 de maio, o distrito — inicialmente como “São Francisco de Aguapé”.

7 set 1923

Emancipação como Guapé

A Lei estadual nº 843, assinada pelo governador Raul Soares de Moura, desmembra o distrito e o emancipa como município.

3 fev 1924

Instalação do município

Domiciano Passos Maia toma posse como primeiro prefeito. Esta data virou o aniversário oficial da cidade.

1925

Elevação à categoria de cidade

Em 10 de setembro a sede é elevada à categoria de cidade.

9 jan 1963

Fechamento das comportas de Furnas

Dez dias depois, em 19 de janeiro, as águas atingem as partes baixas de Guapé.

1964

Cidade nova

A cidade reconstruída em terreno mais alto é entregue, ainda com obras em andamento.

mar 1965

O lago completo

As águas tocam os alicerces do Bangalô e param ali. Foram 206 km² submersos — cerca de 22% do território municipal.

2002

Decreto de tombamento

O Decreto Municipal nº 594/2002 tomba Bangalô, Parque do Paredão, Escola Dona Agostinha Flor de Maria e o sino da antiga matriz.

🌊 1963 · A cidade renasceu das águas

O dia em que tudo virou água

Com o fechamento das comportas da represa de Furnas em 9 de janeiro de 1963, as águas começaram a subir. Dez dias depois, em 19 de janeiro, já atingiam as partes baixas da cidade. Casas, estradas, roças inteiras, a antiga igreja matriz — tudo submerso.

Os proprietários não foram indenizados de forma satisfatória. Houve desvalorização das terras, ruptura fundiária e impacto cultural profundo. A antiga Guapé, que era cidade de várzea do Rio Grande e do Rio Sapucaí, deixou de existir.

Em março de 1965, o lago estava completo. As águas pararam de subir ao tocar os alicerces do Bangalô — hoje, a construção mais antiga preservada, símbolo material da cidade anterior.

O jornalista José Franco, da revista O Cruzeiro, cobriu o drama numa reportagem que ficou conhecida: “Guapé será apenas um retrato na parede”. O trabalho rendeu a ele o Prêmio Esso de melhor reportagem do ano.

Mas a bandeira já tinha a resposta, escrita 39 anos antes: Fluctuat Nec Mergitur — flutuarás, não afundarás. E Guapé ressurgiu, mais alta, à beira d’água.
🏛️ Símbolos oficiais

Brasão, bandeira e hino

A identidade oficial de Guapé é marcada por três símbolos que atravessam gerações: o brasão, a bandeira com o lema latino e o hino municipal — pequenos monumentos que condensam a história.

Brasão de Guapé - Fluctuat Ne Mergitur

O escudo e o lema

Na bandeira de Guapé está gravado o lema latino Fluctuat Nec Mergitur — que significa “flutuarás, não afundarás”, em uma livre interpretação “resistirás”. A frase foi adotada em 1924, ano da instalação do município.

39 anos depois, quando as águas de Furnas cobriram a cidade antiga em 1963, o lema ganhou uma dimensão que ninguém tinha previsto. Guapé flutuou — e continua flutuando.

Bandeira de Guapé

🏳️ A bandeira de Guapé

Idealizada na década de 70 pela Professora Sabina Goulart Oliveira. Retangular, em azul (as águas) e branco (a tranquilidade e a paz do município).

A simbologia traz a planta aquática aguapé (que havia em abundância antes da inundação), o café e o peixe — representando a economia do município.

Em 1924, o lema Fluctuat Ne Mergitur — "Flutuarás, não afundarás", ou "Resiste" — foi escrito na bandeira.

🎵 Hino do Município de Guapé

Letra de Sônia Maria De Oliveira Vilela · Música de Antônio Carlos Oliveira

Canto a minh'alma, aqui entre serras, A beleza calma, dessa minha terra, Onde cobrem mágoas, essas águas mansas, Por onde navegam nossas esperanças.

E sonham seresteiros, e choram violões, Amores e mágoas, saudades canções, Parece que o céu, termina na serra, E a lua visita só nossa terra.

Oh! Terra ilhada! Guapé terra amada! Tens o sol, a lua, és iluminada! Cercada de história, poemas de viola Paisagem quieta, do mundo escondida.

Hoje no fundo das águas, Corre um rio, uma lembrança, És saudades, oh! Rio Grande, Só o meu sonho te alcançar...

Dos olhos pingaram mágoas Rolaram longe daqui Misturando águas e mágoas Ao Rio Sapucaí.

— Sônia Maria De Oliveira Vilela

🏛️ Patrimônio oficial

O que o tempo e o lago preservaram

Pelo Decreto Municipal nº 594/2002, Guapé tombou seus principais bens materiais e registrou suas manifestações culturais mais importantes. É o mapa oficial daquilo que a cidade considera essencial guardar.

🏠

Bangalô — Casa da Cultura

A construção mais antiga preservada. Seus alicerces foram tocados pelas águas em 1965 — hoje abriga o museu com objetos centenários, documentos e fotos da antiga Guapé.

🏞️

Parque Ecológico do Paredão

Tombado como área de preservação natural. Cachoeira imponente, trilhas, mirantes e escalada — o maior cartão-postal natural do município.

🏫

Escola Dona Agostinha Flor de Maria

Escola estadual histórica, preservada pelo tombamento como marco da educação guapeense.

🔔

O sino da antiga matriz

Salvo das águas em 1963, é hoje um dos objetos mais simbólicos da cidade. Tombado como testemunha material da Guapé anterior ao lago.

Igreja Matriz de São Francisco de Assis

Inventariada pelo patrimônio. Abriga a paróquia criada em 1856 e é o coração religioso da cidade reconstruída.

🎼

Lira Maestro João Novato

Banda tradicional da cidade, inventariada pelo patrimônio como símbolo da vida musical guapeense.

🥁 Cultura popular

Congado, Moçambique e a fé que dança

A Guarda de Moçambique e o Terno de Congada estão oficialmente registrados como patrimônio cultural imaterial de Guapé. São manifestações afro-católicas que atravessam séculos, misturando a fé em São Benedito e Nossa Senhora do Rosário com o ritmo de tambores, bastões e cantigas dos tempos da escravidão.

Congado — cortejo religioso que simboliza a coroação de reis e rainhas do Rosário, com danças ritualizadas, instrumentos tradicionais e vestimentas coloridas. Em Guapé, a tradição se mantém viva em festas religiosas e no calendário paroquial.

Moçambique — terno/guarda com caráter mais guerreiro e protetivo. Marca presença nas celebrações de padroeiros e na Festa da Jacutinga. Os bastões, os cânticos e os passos são transmitidos de geração em geração.

“Os meus tambores são meus avós. Quando eu toco, eles voltam.” — fala recorrente entre congadeiros guapeenses sobre a transmissão da tradição.

Outras manifestações registradas ou praticadas na cidade: Folia de Reis, Capoeira e a tradição musical da Lira Maestro João Novato.

🎉 Calendário festivo

As datas que Guapé celebra

🎂

3 de Fevereiro

Aniversário do município. Instalação em 1924, desde então feriado municipal e data cívica central.

🎭

Carnaval

Um dos grandes momentos turísticos. Em 2024, a cidade uniu a programação com o centenário do município.

🎵

Festa da Jacutinga

No distrito de Aparecida do Sul. Em 2025 celebrou 105 anos — uma das mais antigas tradições religiosas da região.

🙏

4 de Outubro — São Francisco

Festa do padroeiro. Precedida de novena, reúne a cidade em torno da paróquia criada em 1856.

📖 Tradição oral

Lendas e memórias

A despedida de São Francisco

Conta a tradição que, quando a imagem do padroeiro foi transportada da antiga matriz para a nova igreja em 1963, ela foi levada de costas — com o rosto voltado para a parte da cidade que seria submersa. Uma despedida simbólica.

Guapé será apenas um retrato na parede

Título da reportagem de José Franco em O Cruzeiro, janeiro de 1963. Rendeu ao jornalista o Prêmio Esso. A frase virou memória coletiva: a cidade não virou só retrato — mas continua presente na lembrança.

O nome profético

Guapé significa “caminho n’água”. Quando as águas de Furnas subiram em 1963, cobrindo a cidade antiga, a ironia histórica virou destino: a cidade de caminhos d’água tornou-se literalmente rodeada por eles.

Chegar de balsa faz parte

Até hoje, parte dos acessos a Guapé é feita por travessias aquaviárias para Campestre e Araúna. Pegar a balsa faz parte da experiência de chegar — e virou parte da identidade local.

Conhecer Guapé é conhecer uma resistência

Uma cidade que foi quase apagada pelas águas e escolheu renascer mais alta, mais bonita, mais presente. Vem viver essa história com a gente.

💬 Falar no WhatsApp
BRPT MGMINEIRÊS ENEN
Rolar para cima
Site desenvolvido por DC Web