História e Cultura
Guapé é uma cidade de duas paisagens e uma memória contínua: nasceu entre rios, foi refeita pelo lago e preserva a identidade pela fé, pelo patrimônio e pela lembrança da cidade antiga.
O nome que virou profecia
Na língua indígena, “Guapé” designa a planta aquática que cobre a superfície de lagos e rios formando verdadeiros tapetes verdes — o aguapé. A palavra também é lida como “caminho n’água”, de uma vegetação chamada “Guay” que, ao se unir, faz caminhos sobre a superfície dos rios.
Ninguém imaginou, quando o nome foi escolhido, como ele seria profético. Séculos depois, Guapé se tornaria literalmente caminho d’água — cercada pelo Lago de Furnas em quase todos os lados.
“Guaypé” — caminho n’água. O topônimo atravessou os séculos como “Aguapé” e se consolidou como Guapé no século XX.
Marcos históricos documentados
Dados confirmados por Prefeitura Municipal, IBGE, ALMG (Lei nº 843/1923), IEPHA-MG e Diocese da Campanha.
Primeiros registros do arraial
Os primeiros aventureiros chegam em busca de ouro. O território era ligado a Boa Esperança.
Capela de São Francisco de Assis
O fazendeiro José Bernardes Ferreira Lara constrói a capela em cumprimento a uma promessa de sua esposa, Dona Esméria Angélica da Pureza.
Paróquia e distrito
Em 9 de maio cria-se a paróquia. Em 28 de maio, o distrito — inicialmente como “São Francisco de Aguapé”.
Emancipação como Guapé
A Lei estadual nº 843, assinada pelo governador Raul Soares de Moura, desmembra o distrito e o emancipa como município.
Instalação do município
Domiciano Passos Maia toma posse como primeiro prefeito. Esta data virou o aniversário oficial da cidade.
Elevação à categoria de cidade
Em 10 de setembro a sede é elevada à categoria de cidade.
Fechamento das comportas de Furnas
Dez dias depois, em 19 de janeiro, as águas atingem as partes baixas de Guapé.
Cidade nova
A cidade reconstruída em terreno mais alto é entregue, ainda com obras em andamento.
O lago completo
As águas tocam os alicerces do Bangalô e param ali. Foram 206 km² submersos — cerca de 22% do território municipal.
Decreto de tombamento
O Decreto Municipal nº 594/2002 tomba Bangalô, Parque do Paredão, Escola Dona Agostinha Flor de Maria e o sino da antiga matriz.
O dia em que tudo virou água
Com o fechamento das comportas da represa de Furnas em 9 de janeiro de 1963, as águas começaram a subir. Dez dias depois, em 19 de janeiro, já atingiam as partes baixas da cidade. Casas, estradas, roças inteiras, a antiga igreja matriz — tudo submerso.
Os proprietários não foram indenizados de forma satisfatória. Houve desvalorização das terras, ruptura fundiária e impacto cultural profundo. A antiga Guapé, que era cidade de várzea do Rio Grande e do Rio Sapucaí, deixou de existir.
Em março de 1965, o lago estava completo. As águas pararam de subir ao tocar os alicerces do Bangalô — hoje, a construção mais antiga preservada, símbolo material da cidade anterior.
O jornalista José Franco, da revista O Cruzeiro, cobriu o drama numa reportagem que ficou conhecida: “Guapé será apenas um retrato na parede”. O trabalho rendeu a ele o Prêmio Esso de melhor reportagem do ano.
Mas a bandeira já tinha a resposta, escrita 39 anos antes: Fluctuat Nec Mergitur — flutuarás, não afundarás. E Guapé ressurgiu, mais alta, à beira d’água.
Brasão, bandeira e hino
A identidade oficial de Guapé é marcada por três símbolos que atravessam gerações: o brasão, a bandeira com o lema latino e o hino municipal — pequenos monumentos que condensam a história.

O escudo e o lema
Na bandeira de Guapé está gravado o lema latino Fluctuat Nec Mergitur — que significa “flutuarás, não afundarás”, em uma livre interpretação “resistirás”. A frase foi adotada em 1924, ano da instalação do município.
39 anos depois, quando as águas de Furnas cobriram a cidade antiga em 1963, o lema ganhou uma dimensão que ninguém tinha previsto. Guapé flutuou — e continua flutuando.

🏳️ A bandeira de Guapé
Idealizada na década de 70 pela Professora Sabina Goulart Oliveira. Retangular, em azul (as águas) e branco (a tranquilidade e a paz do município).
A simbologia traz a planta aquática aguapé (que havia em abundância antes da inundação), o café e o peixe — representando a economia do município.
Em 1924, o lema Fluctuat Ne Mergitur — "Flutuarás, não afundarás", ou "Resiste" — foi escrito na bandeira.
🎵 Hino do Município de Guapé
Canto a minh'alma, aqui entre serras, A beleza calma, dessa minha terra, Onde cobrem mágoas, essas águas mansas, Por onde navegam nossas esperanças.
E sonham seresteiros, e choram violões, Amores e mágoas, saudades canções, Parece que o céu, termina na serra, E a lua visita só nossa terra.
Oh! Terra ilhada! Guapé terra amada! Tens o sol, a lua, és iluminada! Cercada de história, poemas de viola Paisagem quieta, do mundo escondida.
Hoje no fundo das águas, Corre um rio, uma lembrança, És saudades, oh! Rio Grande, Só o meu sonho te alcançar...
Dos olhos pingaram mágoas Rolaram longe daqui Misturando águas e mágoas Ao Rio Sapucaí.
— Sônia Maria De Oliveira Vilela
O que o tempo e o lago preservaram
Pelo Decreto Municipal nº 594/2002, Guapé tombou seus principais bens materiais e registrou suas manifestações culturais mais importantes. É o mapa oficial daquilo que a cidade considera essencial guardar.
Bangalô — Casa da Cultura
A construção mais antiga preservada. Seus alicerces foram tocados pelas águas em 1965 — hoje abriga o museu com objetos centenários, documentos e fotos da antiga Guapé.
Parque Ecológico do Paredão
Tombado como área de preservação natural. Cachoeira imponente, trilhas, mirantes e escalada — o maior cartão-postal natural do município.
Escola Dona Agostinha Flor de Maria
Escola estadual histórica, preservada pelo tombamento como marco da educação guapeense.
O sino da antiga matriz
Salvo das águas em 1963, é hoje um dos objetos mais simbólicos da cidade. Tombado como testemunha material da Guapé anterior ao lago.
Igreja Matriz de São Francisco de Assis
Inventariada pelo patrimônio. Abriga a paróquia criada em 1856 e é o coração religioso da cidade reconstruída.
Lira Maestro João Novato
Banda tradicional da cidade, inventariada pelo patrimônio como símbolo da vida musical guapeense.
Congado, Moçambique e a fé que dança
A Guarda de Moçambique e o Terno de Congada estão oficialmente registrados como patrimônio cultural imaterial de Guapé. São manifestações afro-católicas que atravessam séculos, misturando a fé em São Benedito e Nossa Senhora do Rosário com o ritmo de tambores, bastões e cantigas dos tempos da escravidão.
Congado — cortejo religioso que simboliza a coroação de reis e rainhas do Rosário, com danças ritualizadas, instrumentos tradicionais e vestimentas coloridas. Em Guapé, a tradição se mantém viva em festas religiosas e no calendário paroquial.
Moçambique — terno/guarda com caráter mais guerreiro e protetivo. Marca presença nas celebrações de padroeiros e na Festa da Jacutinga. Os bastões, os cânticos e os passos são transmitidos de geração em geração.
“Os meus tambores são meus avós. Quando eu toco, eles voltam.” — fala recorrente entre congadeiros guapeenses sobre a transmissão da tradição.
Outras manifestações registradas ou praticadas na cidade: Folia de Reis, Capoeira e a tradição musical da Lira Maestro João Novato.
As datas que Guapé celebra
3 de Fevereiro
Aniversário do município. Instalação em 1924, desde então feriado municipal e data cívica central.
Carnaval
Um dos grandes momentos turísticos. Em 2024, a cidade uniu a programação com o centenário do município.
Festa da Jacutinga
No distrito de Aparecida do Sul. Em 2025 celebrou 105 anos — uma das mais antigas tradições religiosas da região.
4 de Outubro — São Francisco
Festa do padroeiro. Precedida de novena, reúne a cidade em torno da paróquia criada em 1856.
Lendas e memórias
A despedida de São Francisco
Conta a tradição que, quando a imagem do padroeiro foi transportada da antiga matriz para a nova igreja em 1963, ela foi levada de costas — com o rosto voltado para a parte da cidade que seria submersa. Uma despedida simbólica.
Guapé será apenas um retrato na parede
Título da reportagem de José Franco em O Cruzeiro, janeiro de 1963. Rendeu ao jornalista o Prêmio Esso. A frase virou memória coletiva: a cidade não virou só retrato — mas continua presente na lembrança.
O nome profético
Guapé significa “caminho n’água”. Quando as águas de Furnas subiram em 1963, cobrindo a cidade antiga, a ironia histórica virou destino: a cidade de caminhos d’água tornou-se literalmente rodeada por eles.
Chegar de balsa faz parte
Até hoje, parte dos acessos a Guapé é feita por travessias aquaviárias para Campestre e Araúna. Pegar a balsa faz parte da experiência de chegar — e virou parte da identidade local.
Conhecer Guapé é conhecer uma resistência
Uma cidade que foi quase apagada pelas águas e escolheu renascer mais alta, mais bonita, mais presente. Vem viver essa história com a gente.
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